sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Animais de companhia cada vez mais presentes...

Para quem tem animais ou simplesmente gosta, vemo-nos muitas vezes a incluí-los nos nossos anseios de Ano Novo: 

-Vamos finalmente adquirir aquele animal de companhia com que sonhamos;
-Para quem já tem, vamos fazer-lhe um check up de saúde mais completo, ou reforçar o plano vacinal contra aquelas doenças que até agora ainda não tivemos oportunidade de fazer; 
-Vai ser este ano que vamos controlar o seu peso e pô-lo no índice de condição corporal desejado; 
-Chegou finalmente a altura de tomar coragem e pedir ajuda para melhorar o comportamento da mascote; 
-Enfim, tanta coisa que podemos fazer melhor…

Ano após ano verificamos um aumento, na nossa prática clínica, do que acabei de escrever. 

Há cada vez mais pessoas a pedirem melhores cuidados, sendo cada vez mais exigentes e por vezes até um pouco extravagantes, eu diria mesmo, que tentam cada vez mais antropomorfizar os seus animais de companhia e aqui é preciso muito cuidado, pois podemos por em causa o seu bem-estar a ponto de lhes causar doenças! Um exemplo é a transposição da nossa dieta (somos omnívoros) para a dieta dos animais de companhia, sendo eles (cão e gato são os mais representativos) maioritariamente carnívoros e veja-se o absurdo, já há quem tente até que passem a vegetarianos! Outra situação relativamente frequente é a aplicação dos nossos valores de justiça na educação dos animais, com todos os desajustamentos que tais práticas possam causar, induzindo estados de ansiedade que podem escalar até à agressividade! Passo a exemplificar: sempre que temos um conflito entre animais debaixo do mesmo teto tendemos a repreender o dominante perante determinada situação e não deixamos que se entendam de forma natural (tendencialmente o mais forte naquele contexto irá impor ao outro a sua vontade de forma natural e assim se mantêm harmoniosamente os seus relacionamentos, sem nenhum “complexo de inferioridade ou superioridade de parte a parte”…). 


Muitos mais exemplos poderia dar mas o espaço de escrita é curto, assim, para concluir, deixo o desejo do respeito pela Natureza e seus equilíbrios, pois só desta forma poderemos coabitar todos em harmonia, nomeadamente com os nossos muito queridos animais de companhia!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Esterilizar?

Dada a polémica instalada num recente programa de televisão, decidi re-editar a minha opinião sobre o assunto:

Deixar fluir a natureza talvez fosse o ideal, mas nós interferimos há muito…

A partir do momento em que colocámos animais a fazer-nos companhia, alterámos as regras. Quero com isto dizer que os tornámos dependentes de nós e nós também cada vez mais deles. 

Com a domesticação ao longo de milhares de anos fomos “abafando” comportamentos de sobrevivência em particular no cão, mas também em muitas raças de gatos que diminuíram em muito, por exemplo, as suas capacidades predatórias.

O risco de termos animais de companhia abandonados (com a nova legislação, pelos vistos, é maior…) ainda por cima não esterilizados é uma bomba relógio, pois o potencial de multiplicação desajustado aos recursos e competências de sobrevivência é enorme!

Por outro lado, o simples facto de tomarmos conhecimento sobre as suas reais necessidades, ao mesmo tempo que descobrimos mais sobre o que melhora a sua vida, confere-nos maior responsabilidade.

É sabido, por exemplo, que a esterilização prolonga a vida (previne muitas doenças e comportamentos de risco), mas também contribui para o bem-estar do animal de companhia que vivendo, muitas vezes apenas connosco, sem possibilidade de expressar por completo o seu comportamento sexual, pode desenvolver ansiedade e até tornar-se agressivo.

Convém também equacionarmos se, vivendo já grande parte das mascotes em apartamento bem junto a nós, estaremos preparados para comportamentos de manifestação de cio (por parte de fêmeas não esterilizadas) ou resposta a este (por parte de machos não castrados), como sejam vocalizações mais exuberantes, marcação territorial, perdas de fluidos sanguinolentos, etc ?
Não me parece que a resposta seja consensual, pelo menos por parte de todos os inquilinos do prédio…


Ah, e não pensemos que os animais esterilizados ficam tristes, ou com algum problema comportamental por não deixarem descendência. Eles apenas respondem à sua atividade hormonal, não fazendo esse tipo de conjeturas. Há apenas alguns casos, em que a esterilização pode não ser de imediato recomendada (importante fazer consulta pré cirúrgica com médico veterinário).

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Animal de companhia na família, vantagens


São já muitos os estudos que nos referem benefícios resultantes do convívio com animais de companhia.Temos o privilégio de os percecionar diariamente na nossa atividade e nunca é demais enumerá-los: 

-Ajuda no desenvolvimento mais responsável e feliz das crianças;
-Combate à solidão, em particular nos mais idosos;
-Promoção de um estilo de vida mais saudável, em especial para quem vive em apartamento.“Obriga-nos” a mais saídas e contacto com a natureza, assim como mais exercício;
-Mais momentos de relaxamento e abstração dos problemas do dia a dia. Há sempre quem nos receba feliz no regresso a casa;
-Promotor de interação social. Quem resiste a um sorriso e até interagir, quando presencia brincadeiras, ou se cruza com aquela mascote bem disposta e comunicativa?;
Mais poderia referir, mas o importante é mesmo a relação de amor que se estabelece e fortalece os laços familiares.
Nos dias que correm, em que o mundo virtual vai tomando conta das relações entre as pessoas, o animal de companhia pode ser o elo de ligação aos afetos e trazer-nos de volta o calor das verdadeiras amizades.

Não deixo, no entanto, de referir que para que tudo isto funcione é necessário termos a noção que ter um animal de companhia não é uma coisa que possamos descartar mais tarde. Convém ter presente que vai exigir de nós tempo, espaço, disponibilidades financeiras, tolerância, sacrifícios, e sobretudo muita dedicação. 

Como estamos a chegar ao Natal e sabemos que esta altura é por natureza propícia à realização de sonhos, apenas peço que se ponderem todos os prós e contras, se o desejo for um animal de companhia…
Já agora e não me canso de o referir, informe-se sobre a espécie e, se for o caso, também a raça, onde será melhor adquirir (criador? centros de acolhimento/recolha?, etc), cuidados médico veterinários, obrigatoriedades legais, onde deixar quando sair (férias, situação de ausência por doença ou outros motivos), etc. 

Se tudo se conjugar, que venha de lá essa mascote cheia de saúde e que as alegrias sejam muitas!

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Registo de animais de companhia…Dúvidas?


Desde que têm vindo a público notícias sobre o que mudou a partir de 25 de outubro de 2019 no que respeita à identificação e registo dos animais de companhia, que a confusão é muita!

Para ajudar a esclarecer aqui fica um contributo:

-Todos os animais que já estavam identificados com microchip apenas tiveram uma passagem administrativa do seu registo para a nova base de dados que se designa por SIAC (Sistema de Informação de Animais de Companhia);

-Cães nascidos antes de 1 de julho de 2008 e que não eram obrigados a ter microchip, o prazo para a colocação deste é de 1 ano a partir de 25/10/2019;

-Gatos e furões nascidos antes de 25/10/2019 o prazo para aplicação do microchip é de 3 anos a partir da data acima referida;

-Animais com microchip, que por alguma falha de conclusão do processo, não se encontram registados, ou não aparecem na nova plataforma SIAC, o prazo máximo para fazer o registo é de 1 ano (a partir de 25/10/2019) sendo que num ato médico veterinário obrigatório como por exemplo uma vacinação antirrábica, tal registo é imperativo e deve ser feito de imediato;

-Cães, gatos e furões nascidos depois de 25/10/2019, têm de ser identificados com microchip (e obviamente registados) até aos 4 meses de idade;

-Deixa de ser necessário o registo dos animais de companhia nas juntas de freguesia (exceto cães perigosos ou potencialmente perigosos); 

-O custo do registo para o tutor/proprietário não são 2,5€, como tem aparecido em muita comunicação social. Tal custo é apenas uma pequena parcela do valor total (que é variável), representando unicamente o valor que a plataforma SIAC cobra ao médico veterinário pelo “alojamento” da informação relativa a cada animal de companhia.
 Já agora, não existe registo no SIAC sem a aplicação de microchip por um médico veterinário (custo do equipamento e honorários têm de ser contabilizados, como até aqui sempre foram). 
Qualquer registo isolado (quando já tinha microchip mas, por falhas, não estava registado) obviamente que também tem de contar com os custos operacionais (recursos humanos diferenciados, acesso ao SIAC e custo do alojamento da informação).

Na dúvida recomendo visita ao médico veterinário e já agora, dizer que não se sabe, não pode ser desculpa, pois as multas podem ser pesadas… 

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Comportamento animal. Pedidos de ajuda a aumentar!


Começamos por sonhar com a mascote que nos irá acompanhar…
Já sabemos que precisa de vacinas, desparasitação, boa alimentação, etc, mas continuamos a descurar aspetos fundamentais para o seu desenvolvimento equilibrado e saudável. 
Muitas vezes, apenas ponderamos alguma disponibilidade financeira e um pouco de espaço para, finalmente, irmos buscar aquela bolinha de pelo tão desejada!

Será que é a espécie que melhor se adequa a nós?

Ou a raça mais equilibrada para as nossas rotinas e feitio?

Ou ainda, será que temos informação suficiente para cuidar devidamente, nomeadamente no que toca ao comportamento animal?

São cada vez mais os pedidos de ajuda na área da medicina comportamental. Muitos casos começam por ser engraçados para os tutores mas com o passar do tempo vão evoluindo para verdadeiros problemas. 
Um exemplo é a ansiedade por separação em cães, com queixas dos vizinhos e até idas da polícia a casa. Outra situação é a escalada dos sinais de agressividade até ao ataque com mordida! Ou ainda a intolerância a outros animais, carros, pessoas a correr, etc o que dificulta passeios e toda uma vida social que gostaríamos usufruir com a mascote bem comportada. 
Vão surgindo novos problemas de comportamento, à medida que as relações com humanos se vão estreitando. A antropomorfização da mascote que vive connosco é quase inevitável. Assim, transpor para ela necessidades que são nossas ou, pelo contrário, não conhecer o seu etograma (padrão de comportamentos característicos de cada espécie), influenciam negativamente o seu bem-estar.
É cada vez mais importante termos o máximo de informação acerca da espécie, raça, ou simplesmente da proveniência e início de vida do animal de companhia a eleger. Depois, na chegada a casa (idealmente por volta dos 2 meses de idade) até somos parecidos: há que ir à escola… aproveitando o período “esponja” de aprendizagem nesta fase de  socialização e frequentar Puppy Classes para os cachorros e Kitten Classes para os gatinhos. 
Seguidamente, um treino de obediência básico em todos os cães é importantíssimo.

Insisto numa boa educação e treino durante toda a vida, de modo a manter o bem - estar de todos.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Medicina veterinária, novas possibilidades…


Com o aumento do respeito, consideração e sobretudo do amor pelos animais, aliados a uma investigação cada vez mais audaciosa com rápidos avanços da ciência, temos vindo a ultrapassar dificuldades, quebrando barreiras até há pouco intransponíveis. 

Hoje em dia temos ao dispor amplas ferramentas preventivas, meios de diagnóstico avançados, técnicas de tratamento médico cirúrgicas de ponta, novos medicamentos (desde os clássicos melhorados e adaptados à medicina veterinária, até aos mais “futuristas” como sejam as múltiplas abordagens com células estaminais, imunoterapias, etc), ou mesmo já a integração das diversas medicinas complementares (acupuntura, implantes de ouro, ozonoterapia, …) com a medicina convencional. Tudo isto associado à partilha da informação, rapidez e capacidade de circulação da mesma, assim como de produtos, sejam eles equipamentos ou medicamentos, faz com que se resolvam ou controlem cada vez mais patologias em praticamente qualquer ponto do planeta. 

Enfim, é a globalização também ao serviço da medicina veterinária. 

Concretizo com um exemplo onde a tenacidade do tutor foi fulcral para pôr em prática o que escrevi. 
Sucintamente, um gato muito especial sofreu um traumatismo, ficando incapacitado de urinar normalmente mesmo após esgotar todas as possibilidades tidas como viáveis envolvendo cirurgia, internamento prolongado com vários procedimentos de tentativas de recuperação da função de urinar autonomamente. O seu inexcedível e excecional tutor nunca desistiu dele, incentivando a equipa médica a ir “até ao fim do mundo” na tentativa de resolver definitivamente a obstrução da uretra por severa estenose (estreitamento). 

Assim, não medindo esforços, realizamos uma rara intervenção a nível mundial em animais de companhia, nomeadamente em gatos, com  a aplicação de um stent uretral (prótese de alargamento da uretra) que atravessou o oceano Atlântico, desde os USA até HVV Hospital Veterinário de Viseu, onde finalmente o nosso gatinho beneficiou de toda esta modernidade que só assim faz sentido!

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Animal de companhia e comportamentos…


O desejo de ter um animal de companhia é ancestral.
O Homem evolui associado ao cão e mais tarde ao gato (animais de companhia mais representativos) criando mesmo vínculos com estes.  Há muitas teorias sobre este assunto (animais funcionam como objeto de apego como sugere Bowlby; representam objeto de transição segundo Winnicott; são parceiros na organização social dos sistemas biológicos como refere Faraco; etc). 
Esta relação cada vez mais estreita e pejada de projeções de parte a parte, pode evoluir de forma indesejada. Existem estudos que relacionam o aparecimento de problemas comportamentais com a inconsistência e desadequação de atitudes dos tutores, face ao temperamento e comportamentos exibidos pelas mascotes. 
É fundamental que se conheçam as particularidades da espécie, raça, ou indivíduo que se pretende introduzir no lar. Ter um animal como companhia é ter mais um ser vivo junto a sí que vai interagir, exigir cuidados a vários níveis, nomeadamente tempo para lhe dedicar em múltiplas tarefas, sejam elas obrigações menos agradáveis, ou tão simplesmente um passeio pelo parque. 
Numa altura em que se fala tanto do animal de companhia, é inevitável a pressão de legitimação de finalmente o adquirir. É de facto uma alegria trazendo muitos benefícios, mas também uma fonte de preocupações.
No dia a dia de clínica deparo-me com situações, por vezes bastante complicadas quer por alterações comportamentais graves, quer por doença física que era impensável… 

É preciso acautelar cuidados básicos de medicina preventiva incluindo a educação e treino, não esquecendo ainda de ter pensado onde deixar, ou quem vai cuidar do nosso patudo quando formos de férias, ou tão simplesmente, quando não estivermos presentes…